Do vape à dependência: a geração viciada em nicotina sem nunca fumar cigarro

Coloridos, aromatizados e frequentemente associados a uma imagem de modernidade, os cigarros eletrônicos têm atraído cada vez mais adolescentes e jovens adultos. O que preocupa especialistas é que muitos desses usuários nunca tiveram contato com o cigarro convencional, mas já apresentam sinais de dependência da nicotina. Segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024 divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 29,6% dos estudantes de escolas públicas e particulares entre 13 e 17 anos já experimentaram o cigarro eletrônico.

De acordo com o pneumologista do Hospital de Caridade São Vicente de Paulo (HSV), Dr. Eduardo Leme, a falsa sensação de segurança é um dos principais fatores que contribuem para o aumento do consumo. “Muitos jovens acreditam que o cigarro eletrônico é menos prejudicial porque o vapor produzido não tem o cheiro forte da fumaça do cigarro tradicional. No entanto, ele contém substâncias que podem causar irritação e inflamação das vias respiratórias, além de expor o organismo a altas concentrações de nicotina”, explica.

Popularidade do cigarro eletrônico preocupa especialistas em saúde (Imagem gerada por IA)
Popularidade do cigarro eletrônico preocupa especialistas em saúde (Imagem gerada por IA)

Entre os sintomas mais observados estão tosse persistente, falta de ar durante atividades físicas, cansaço excessivo e agravamento de quadros respiratórios já existentes, como asma e rinite. Embora os efeitos de longo prazo ainda estejam sendo estudados, especialistas destacam que os danos à saúde podem começar a aparecer ainda nos primeiros meses de uso, especialmente entre adolescentes, que estão em fase de desenvolvimento físico.

Além dos impactos no organismo, a dependência da nicotina também afeta o comportamento e a saúde emocional dos usuários. Para o psicólogo do HSV, Vinicius Costa, o vape tem se tornado uma porta de entrada para o consumo frequente da substância. “Por ser discreto, fácil de transportar e muitas vezes visto como algo socialmente aceito, o cigarro eletrônico acaba sendo utilizado diversas vezes ao longo do dia. Isso favorece a dependência e pode gerar sintomas como irritabilidade, ansiedade e dificuldade de concentração quando a pessoa fica sem usar”, afirma.

Vinicius aponta que o uso do vape gera sintomas como irritabilidade e ansiedade
Vinicius aponta que o uso do vape gera sintomas como irritabilidade e ansiedade

Outro fator que preocupa os especialistas é a naturalização do hábito. “Diferentemente das gerações anteriores, muitos jovens não se identificam como fumantes, mesmo consumindo nicotina diariamente por meio dos dispositivos eletrônicos. Essa percepção reduz a sensação de risco e dificulta o reconhecimento da dependência, atrasando a busca por orientação e tratamento”, aponta Dr. Eduardo.

Diante desse cenário, profissionais de saúde reforçam a importância do diálogo para conscientizar a população sobre os riscos do cigarro eletrônico. Mais do que uma tendência passageira, o vape tem se consolidado como um desafio de saúde pública, especialmente entre os mais jovens, que podem desenvolver dependência sem nunca terem acendido um cigarro convencional.

Dr. Eduardo explica que os jovens não reconhecem a dependência em nicotina
Dr. Eduardo explica que os jovens não reconhecem a dependência em nicotina

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